A história do Jornal Folha Ubajarense

[HUMOR] Leia também: A surpreendente história de Uba e Jara
Reza a lenda que foi numa tarde ensolarada de janeiro que Uba e Jara se conheceram. Uba, o índio, tomou o último gole do chá da folha de bamburral, porque estava se recuperando de uma terrível diarreia. Conheça a surpreendente história que origem ao topônimo UBAJARA.

No início era o verbo… Minha paixão pelo jornalismo começou na adolescência. Eu editava o jornal DP – Diário do Pedestre. Satirizando o nosso glorioso e amado Diário do Nordeste, claro. Era escrito à mão em uma agenda pequena de capa cinza. Os desenhos mal feitos ilustravam as matérias, que eram produzidas com ajuda do fictício repórter Babau. Ele era praticamente um repórter investigativo. Meu jornal não tinha leitores, mas um belo dia minha irmã pegou a agenda de capa cinza e desatou a rir do meu jornalismo sem noção.

Depois dessa fase, comecei a trabalhar e pude comprar o meu primeiro computador. Liguei alguns cabos conectando o modem à linha telefônica, depois de dias intermináveis lendo tutoriais e consegui conexão com a internet. Era 1998. Fiquei em êxtase quando a página do portal UOL abriu. Havia uma enorme facilidade de acesso a uma biblioteca infinita, sites de pesquisa, revistas, livros gratuitos. Também me apaixonei pela criatividade dos banners publicitários e a imensidão de gifs animados. Meu sonho era produzir um site e aprender a desenvolver gifs animados. Eu tinha uma pasta cheia deles, fazia download de tudo que via. Matuto é o cão.

Gastava 40% do meu parco salário com internet. Faltava enfartar quando a conta do telefone chegava. A conexão às vezes caía a cada três minutos e reconectava automaticamente. Cada ligação era uma nova despesa, além do tempo de permanência. Comecei a estudar a linguagem HTML, ler tutoriais na internet e assinei algumas revistas de informática. Com ajuda de uma ferramenta gratuita desenvolvi um site sobre Ubajara. Era uma coisa tosca, mas funcionava. Eu recebia e-mails de ubajarenses que estavam fora do Brasil me parabenizando pelo site, de pessoas que desejavam informações como onde se hospedar em Ubajara, e ainda mensagens com sugestões ou queixas para que fossem encaminhadas para a Prefeitura.

Depois de ter editado um jornal como o Diário do Pedestre, o site foi uma excelente experiência nesse quesito comunicação. Eu estava me aproximando das pessoas e essa convivência me deu a oportunidade de saber exatamente que tipo de informações elas gostariam de ter, no entanto um jornalismo mais sério estava me esperando quando eu topei com o ubajarense e meu ex-professor de história, Edmundo Macedo (in memoriam).

Fatos que antecederam essa topada: Lendo uma revista de informática encontrei a informação de que era possível formar um grupo de discussão. Então formei o grupo Migos e Migas de Ubajara e nos comunicávamos por correio eletrônico. Era 1999. Foi nesse período que o ubajarense Carlos Cunha Miranda, um grande empresário radicado no Rio de Janeiro (foi ele quem patenteou a invenção das ampolas quebráveis de remédios), me encontrou em um site de busca. O primeiro a se cadastrar no grupo. Eu tinha dificuldades em recolher os e-mails para fazer o cadastro das pessoas no sistema, pois na cidade ninguém tinha e-mail ainda. Eu sou uma espécie de Matusalém da Internet…

Pois bem, topei com Seu Edmundo. Toda orgulhosa do meu site tosco, contei para ele que tinha desenvolvido um site sobre Ubajara e que tive contato com um grande amigo dele de infância, o Seu Carlos Miranda. Nossa, ele ficou muito emocionado e foi me contar todas as peripécias que os dois aprontavam quando eram garotos. Logo, me disse que estava precisando de alguém em Ubajara que pudesse editar o Informativo O Senhor da Canoa, pois era editado em São Paulo. Eu topei o desafio, mesmo sem experiência alguma em diagramação. Passei dias lendo tutoriais do Corel Draw, cutucando aqui e ali. Não foi nada fácil. Eu não tinha com quem trocar informações, fazer uma pergunta, nada. Só eu e a máquina. Mas eu sou valente, prova disso é que eu tive a audácia de oferecer um curso de informática dentro da minha casa e dava aulas com uma apostila que eu mesma desenvolvi (a cidade ainda não oferecia cursos de informática).

Quem conheceu o Informativo O Senhor da Canoa sabe que esse era um periódico que ressaltava o passado, a identidade e a cultura do povo ubajarense. Era o retrato da alma do professor Edmundo. Saudosismo puro. Por vezes eu publicava artigos de opinião, um deles foi sobre o tema Turismo e Qualidade de Vida – nesse período eu estava cursando Turismo.

O rótulo de “repórter” eu ganhei quando um belo dia o Professor Edmundo, meu chefinho no Informativo, me incumbiu de uma missão. Fotografar um dos candidatos a prefeito. Eu tinha uma máquina fotográfica analógica, daquelas que funcionam com filme de revelação (Sai, Matusalém!). Pensei ter feito a bendita foto, mas quando levei para revelar fui informada que todas estavam queimadas. Claro, essa história virou uma crônica e, sabendo do acontecido através da grande rede mundial, o amigo Carlos Miranda imediatamente me enviou via correios uma máquina digital super ultra mega moderna (na época) que funcionava com um disquete de três polegadas dentro – as fotos eram salvas diretamente no disquete, por isso demandava um certo tempo, mas era um objeto mais cobiçado que a Gabriela, personagem do Jorge Amado. Miranda me presentou alegando que “uma repórter não pode ficar sem uma câmera”. Essa máquina foi minha companheira de guerra por muitos anos, sempre com uma caderneta e uma caneta na bolsa.

Como minha cabeça sempre fervilhava de ideias e pensamento,s decidi colocar tudo isso pra fora e comecei um Blog, que mais tarde se chamou ‘Blog Pensante de Monique Gomes’. https://moniquegomes.wordpress.com/ Eu aprecio muito o gênero crônica, porque a crônica é humorada, despojada. É o texto de bermudas, como disse um escritor. Paralelo ao Blog, montei um site com domínio registrado migosemigas.com.br – hoje não está mais disponível na internet, mas guardei parte dele nesta página: http://www.folhaubajarense.com.br/migosemigas.htm

O site Migos e Migas dava suporte para divulgar o grupo de amigos de Ubajara e os artigos e crônicas que eu escrevia no Blog eram linkados lá, pois o domínio  .com.br  é bem mais fácil de ser lembrado e acessado  pelos visitantes. Uma das crônicas mais lidas foi Barrada na Caixa Econômica, que conta sobre minha fobia de portas giratórias de banco, mas um dos trabalhos que eu mais gostei de produzir foi a sátira Se Coçar De Novo. Rir é bom porque você esquece que o sistema acaba te devorando.

Então, depois do Diário do Pedestre, do site tosco, da formação do Grupo Migos e Migas, do Blog Pensante, do Site Migos e Migas, do Informativo O Senhor da Canoa, meu desejo era produzir um jornal impresso. Ano 2005. Bolei um projeto para um jornal que se chamaria Folha Ubajarense e enviei para a Prefeitura. Meses depois recebi uma ligação do Prefeito. Conversamos e a ideia amadureceu. Nasceu o Jornal Folha Ubajarense versão impressa. Tive autorização para usar uma página para matérias aleatórias de interesse geral. Na edição em que eu publiquei a trajetória dos meninos da Banda Superid choveu gente na Prefeitura para pegar o jornal. Outra matéria que agradou a população foi ‘Tanajuras, as formigas comestíveis’. Eu cobria os eventos da Prefeitura, as inaugurações, corria a zona rural. Fotografava, fazia anotações, redigia as matérias, editava texto, fotos, diagramava no Corel Draw, ajudava na distribuição e selava os jornais que eram enviados pelos correios para ubajarenses que moram em outros estados. Eu fazia o trabalho de uma equipe. Não aconselho ninguém a fazer o mesmo, pode causar danos à saúde.

Anos depois a administração pública não renovou o contrato de serviços prestados. Nesse período eu quase deixei de ser a Monique Gomes para ser a Monique Cadê O Jornal?, pois eu ouvia essa frase a todo momento. Pensei na viabilidade de produzir um jornal independente e meti a cara. Produzia as matérias e paralelamente visitava os comerciantes para vender os anúncios – serviço gráfico é uma coisa bem cara para quem não pode pagar.  No início muita gente não entendeu o fato do jornal continuar com o mesmo nome, mas Jornal Folha Ubajarense é um projeto meu. Não tinha motivos para mudar. Então, se com a parceria da Prefeitura eu já fazia tudo, com a produção independente eu também tinha que correr o mundo para vender os anúncios. Foi muito cansativo fazer tudo sozinha. Eu precisava de uma pessoa que pudesse fazer as vendas enquanto eu trabalhava nas matérias, mas não encontrei essa alma. Então publiquei apenas seis edições. Móórreu o jornal.

Mais uma vez entrou em cena a Monique Cadê O Jornal? Eu tentava sair do jornal, mas o jornal não queria sair de mim. Então eu pensei que seria possível desenvolver um site do Folha Ubajarense que mostrasse um jornalismo de qualidade, com compromisso, ética e seriedade – porque publicar algo assim no site Migos e Migas não era possível pelo perfil cômico do site…

Então, depois do Diário do Pedestre, do site tosco, da formação do Grupo Migos e Migas, do Blog Pensante, do Site Migos e Migas, do Informativo O Senhor da Canoa, do Jornal Folha Ubajarense impresso, nasceu o Jornal Folha Ubajarense online, no dia 20 de Agosto de 2009, depois de dias exaustivos de estudo e pesquisa. Meses depois eu estava cursando Jornalismo Socioambiental. Como amante do jornalismo, viver essa experiência é muito gratificante. Sem menosprezar os jornais impressos, mas o jornal online é um banco de dados que fica registrado para sempre. O feedback é imediato. Ninguém usa o jornal online para embrulhar sabão ou como forro para a casinha do cachorro e não é preciso pagar rios de dinheiro para a gráfica… Meu deus, como é bom ser livre para desbravar o mundo!

O nascimento do Jornal Folha Ubajarense, por Monique Gomes, Jornalista socioambiental pela DW Akademie, formada em Turismo e Hotelaria pela UVA, graduada em Letras/Português pela UFPB, repórter fotográfica, redatora, cronista.

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