Carta para Ravi

Querido Ravi,

eu, a mamãe e o papai compramos ingressos para ver Homem Aranha Sem Volta Para Casa horas antes de você avisar que queria sair da barriga da mamãe. Era dia 4 de janeiro de 2022.

Em vez de irmos ao cinema, seguimos para o hospital da cidade vizinha por orientação do médico — o mesmo hospital que a mamãe nasceu e o seu bisavô Vidomar faleceu. 

No trajeto, vários carros e motocicletas estavam estacionados na beira da estrada. Algumas pessoas usavam botas de cano alto e luvas. Elas caçavam tanajuras (formigas comestíveis). 

Chegando ao hospital, o médico disse que a mamãe precisava tomar duas injeções com intervalo de 24 horas pra ajudar você a respirar. Toda hora as enfermeiras checavam se vocês estavam bem.

Eu comentei que você ia demorar pra chegar e que seria bom matarmos o tempo. Assim, enquanto mamãe lia um e-book no Kindle, eu fazia a leitura de um livro de papel da Regina Navarro — também gosto do digital, mas queria fazer umas anotações por escrito. 

Além desse passatempo, comprei cruzadinhas e caça-palavras em uma banca de revistas no centro da cidade.

O moço da portaria do Hospital falou que era proibido entrar com comida, mas eu já tinha passado com maçãs, uvas, iogurte, castanha, barra de proteínas e outros petiscos… 

Eu via tanto neném fofinho que só aumentava a minha ansiedade de pegar você nos braços!

As gestantes que estavam no mesmo piso que o nosso, as acompanhantes delas e as enfermeiras não acreditavam que eu era mãe da sua mamãe. 

A fofoca se espalhou naquela unidade e, certa vez, eu tava enchendo uma garrafinha de água no corredor quando fui abordada por uma jovem. Ela perguntou se era verdade que eu era mãe “daquela moça ruiva que ganhou neném”.

Finalmente você chegou no dia 06 de janeiro, às 15 horas, todo Nicolas Cagezinho.

Aliás, seu segundo nome, Nicolas, é em homenagem a um dos meus atores favoritos da vida, o Nicolas Cage.

Quando você crescer, vai ver o quanto ele é versátil, faz filmes que variam de ruim a ótimo. Além disso, pessoalmente ele é bem excêntrico (já comeu uma barata viva pra poder entender um personagem).

Não foi fácil convencer a mamãe pra te chamar assim. Usei vários argumentos, um deles é que nós duas somos Nique: Monique, Dominique. Então, Nicolas daria continuidade à tradição de Nicks. Persuasivo, neh?

Você nasceu no dia de Reis. É uma data importante no calendário cristão, pois marca o momento em que os três reis magos foram visitar o recém nascido Jesus, filho de Deus. Também é a data de encerramento das celebrações natalinas. 

A Meire, sua tia-avó, me batizou de vóvz. Pegou. Portanto, ela é tia-vóvz. O Neimar é o seu tio-vôvz. Tem a bisa Lourdinha, a bisa Fátima e a Co-bisa Zélia, que mora em Natal junto com o tio-vôvz Igor e tia-vóvz Rina.

A Co-biza mandou um áudio emocionada porque, bem na hora que você tava saindo da barriga da mamãe, a paróquia da cidade passava com a carreata dos reis magos em frente a casa dela. 

Você também tem muitos primos e primas e, aos poucos, vai conhecer todos. Inclusive a parte da família não-humana: Naruto, Luci, Panda, Nino e Gomu.

Ainda no hospital, você só queria saber de dormir. Na hora de mamar, eu e a mamãe ficávamos fazendo cosquinhas nos seus pés, mexendo na orelhinha, na barriguinha. Valia tudo pra manter você acordado. 

A primeira troca de fralda de cocô foi um desastre completo. Eu não lembrava como fazia, mas encarei. Comecei a puxar a fralda suja. A mamãe ficou aflita, me dizendo pra colocar a fraldinha limpa por baixo antes de limpar o seu bumbum.

Fiquei paralisada tentando processar. 

Olhei para o celular. Não dava pra pesquisar no YouTube porque as minhas mãos estavam ocupadas segurando você. A acompanhante de uma paciente veio prestar socorro, nessa altura, morrendo de rir da trapalhada. 

Devolvi a gentileza. Fiz o bebê dela parar de chorar miseravelmente apenas cantarolando uma música de ninar qualquer. Eureka!

Enfim. Você estava limpinho, alimentado, dormindo no bercinho ao lado da mamãe na cama do hospital. Eu na minha cadeira de couro reclinável, confortável e escorregável.

Finalmente, um momento de descanso… que logo foi interrompido pelo grito desesperado da mamãe apontando para o berço:

__ MÃE!!! O BICHO!!!

Imediatamente visualizei um daqueles monstros do filme Um Lugar Silencioso (2018) que devora qualquer coisa que mexe ou faz barulho. 

Mas não.

Era um inseto bem pequeno, popularmente conhecido como Moleque: parente da tanajura, mas sem o ferrão.

Ele se aproximava do acrílico do berço pelo lado de fora sem a menor intenção de atacar você.

Totalmente inofensivo.

Levou uma cacholeta, como se diz aqui no Ceará.

Papai Urso e Mamãe Urso no cinema

Um comentário sobre “Carta para Ravi

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