Nem sempre Jesus é retratado como gay, mas os gays sempre são tratados como demônios

Recentemente, coloquei essa frase numa rede social em referência ao Especial de Natal do Porta dos Fundos (2019) que os evangélicos estão brigando pra Netflix tirar do ar.

Logo em seguida, uma série de comentários se sucederam. O fato é que muitas pessoas se sentiram ofendidas. O que não tenho certeza é se elas realmente assistiram ao filme antes de emitir opinião.

HOMICIDA ou HOMOSSEXUAL: o que seria mais ofensivo pra Jesus?

Na história há uma cena em que Jesus, interpretado por Gregório Duvivier, entra em casa e é surpreendido pela família, que o esperava para uma festinha de aniversário.

“Jesus” fica constrangido, pois estava acompanhado de um amigo, vivido por Fábio Porchat, um gay extremamente alegre e divertido que se torna a atração do evento: conversa e interage com todos ao redor.

Mais tarde, descobrimos que o demônio em pessoa provocou a primeira “tentação” de Cristo de forma bem-sucedida.

Ou seja, fica entendido que os dois tiveram um momento íntimo, já que o capeta é gay.

Talvez esse seja o ponto que mais desagrade aos católicos, não sei: a ideia de um santo ter relações sexuais, ou homossexuais… No entanto,  nenhuma cena de sexo foi mostrada.

Na coluna de opinião do jornal O Globo, Veríssimo escreveu: “Depois de tudo que passou em vida, Jesus não iria se ofender com a gozação, ele que foi um grande irreverente”.

É compreensível que algumas interpretações causem um certo estranhamento nos religiosos, mas elas também servem para refletir: por que ser representado como gay é entendido como ofensa?

Vale lembrar que, se fosse vivo, Jesus seria amigo dos homossexuais, das pessoas trans, do índio, do branco, do preto, do pobre, da prostituta.

Será que vestir uma camiseta com a inscrição Marcha Para Jesus, participar desse evento religioso, fazer o gesto de arma com as mãos e simular o disparo de tiros em alguém que está caído no chão não seria mais constrangedor pra Jesus?

Quando isso aconteceu, não houve protestos nem abaixo assinado pra defender Jesus.

Será que é melhor ser visto como HOMICIDA que HOMOSSEXUAL? Qual dos dois ofenderia mais a Jesus? Finalizo com outro questionamento:

Se, por acaso, Jesus voltasse à terra e, claro, na forma de humano, revelasse ser homossexual?

Toda a sua obra e ensinamento perderiam a importância?

O Diário Centro do Mundo publicou um texto atribuído ao Padre Francis Sylvestrini Adão que diz o seguinte:

1. Blasfêmia e sátira estão em dois campos de sentido diferentes. A blasfêmia é uma possibilidade de desvio dentro da comunidade de fé. A sátira é uma linguagem e um recurso crítico do campo das artes, de tipo humorístico.

2. Quando, por diversas razões, os humoristas tentam entrar no campo religioso, é importante distinguir o “alvo” que querem atingir. O “alvo” da blasfêmia é Deus. O “alvo” da sátira é a imagem de Deus projetada publicamente por aqueles que dizem crer nEle. Os que se utilizam da sátira falam sobre nós, nossas crenças, nossas práticas; não sobre Deus.

3. A sátira se constrói com caricaturas: às vezes, exagerando traços que vão na linha da crença comum, para fazer enxergar o que não se vê; às vezes, construindo imagens chocantes, para provocar criticamente a crença comum.

4. Um grupo de humor não tem, em si mesmo, compromisso com o Jesus dos Evangelhos. As igrejas cristãs, essas sim, deveriam sempre ter. Num momento em que uma figura de Jesus domina a cena pública, com implicações políticas para toda a população, essa “figura” (que, como qualquer interpretação, nunca será idêntica a Jesus) pode se tornar alvo de todos os sujeitos de uma sociedade.

5. Ninguém precisa gostar de um grupo de humor (este, pessoalmente falando, não é o estilo que aprecio). Mas este desconforto e revolta que vários cristãos estão sentindo podem ser um alerta: a sátira, talvez, nos coloque diante do verdadeiro risco de blasfêmia que estamos correndo (nós, que cremos). Não esqueçamos: nas Escrituras, Deus transmitiu sua mensagem até mesmo pela boca de uma mula!

6. Ocasião, então, para um exame de consciência: a imagem de Jesus que temos projetado publicamente (em palavras e em gestos) é, realmente, aquela que nos transmitem os Evangelhos? Trata-se dAquele que, encarnando-se na periferia da periferia daquele tempo, veio trazer Vida em abundância para todos? Somos reflexo do Jesus que – para anunciar a vitória da graça sobre as infidelidades de todos nós – preferiu caminhar e conversar com pecadores, prostitutas, pobres e doentes, ao invés de convencer sacerdotes do Templo, mestres da Lei e fariseus?

7. Será que a caricatura satírica, para muitos desagradável, deste controverso “Especial de Natal” não seria uma ocasião favorável para examinarmos a possível caricatura blasfemadora que muitos de nós, crentes, estamos projetando no espaço público de nosso país? Declaramos guerra a um “mundo perdido”, sem considerarmos nossa sempre necessária e contínua conversão à Santidade de Deus, que deseja que nenhum de Seus filhos se perca? Neste tempo de Advento, façamos nosso próprio “Especial de Natal”, agradável a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo: cancelemos todas as falsas imagens de Jesus que estamos consumindo e divulgando. Abracemos, de modo definitivo, o Jesus dos Evangelhos, o Cordeiro manso e humilde de Deus, o Anunciador incansável da Misericórdia do Pai, o Único que é uma Boa Notícia para nós e para todos.

PS.: Não estou jogando com teorias… Se não ficou claro, que fique agora: há, no mínimo, silêncio nosso diante dos feminicídios, invasões e assassinatos em terras indígenas e quilombolas, precarização do direito dos idosos, truculência com pessoas pobres que não cometeram crime (inclusive crianças!)…

Segundo a mais sólida doutrina cristã, essas pessoas são “imagem de Deus”. O risco de blasfêmia ao qual faço alusão é absolutizar símbolos (ainda que importantes) e relativizar vidas (sempre insubstituíveis). Seria o contrário do que fez Nosso Senhor Jesus Cristo.

É admirável a sabedoria desse padre, não é mesmo?

 

 

2 comentários sobre “Nem sempre Jesus é retratado como gay, mas os gays sempre são tratados como demônios

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