Como eu, o iogurte grego e a tinta de cabelo sobrevivemos ao dia do jornalista

A madrugada fatídica do dia 06 de abril trouxe uma chuva carregada de raios, relâmpagos e trovões que simulavam um apocalipse aqui, na pacata cidade onde moro.

Acordei com o barulho da trovoada e imediatamente fui abrir a porta da casa para acolher meus amigos de quatro patas que, apesar de bem instalados na suíte master da garagem, poderiam sentir frio ou medo.

No dia seguinte, logo cedo pela manhã, meu computador, que já havia apresentado um comportamento hostil durante nosso relacionamento antes das descargas elétricas enviadas por São Pedro, pifou.

Poderia ter acontecido em um dia qualquer, mas tinha que ser exatamente na véspera de eu concluir uma atividade importante. Trabalho em home office para uma empresa que é referência em marketing de conteúdo no Brasil. Produzimos conteúdo para blogs, com foco em resultados.

Pensei: vai dar tudo certo, afinal, eu tenho 24 horas para entregar o material… e saí para fotografar a empresa de um cliente. Na verdade, eu não sabia o que estava por vir. A ingenuidade é mesmo uma virtude.

Enquanto o marido me ajudava a diagnosticar a causa do chilique do computador, descobrimos o pior: não havia sinal de internet, ou seja, zero chance de trabalhar, mesmo em outra máquina, tablet ou smartphone.

A solução parecia óbvia. Encontrar uma lanhouse mais perto de casa. Às 14 horas entrei no meu carro. Girei a chave na ignição. Nenhuma reação do automóvel. Novamente. Nada. Sem chance. Pensei: Deus tá de sacanagem comigo. Pego um carro emprestado.

Chegando na lanhouse, descubro que, em consequência das trovoadas apocalípticas da noite anterior, o provedor de acesso à internet que utilizamos foi prejudicado e sofreu perda de vários equipamentos, ou seja, a pane foi geral.

Sem nada a fazer, dou uma passadinha no supermercado. Compro duas bandejas de iogurte grego light e uma tinta de cabelo. Lembro que tenho que passar na farmácia, portanto deixo os produtos com a caixa do supermercado, dizendo: Volto já já. Acontece que não voltei, porque na fila da farmácia me distraí com uma coleção de bijouterias fofinhas.

No final da tarde, sou informada da existência de uma lanhouse no centro da cidade que funciona com um provedor diferente do meu. Há uma luz no fim do túnel. Nunca perca a esperança. Arregacei as mangas e segui direto pra lá. De fato, uma cadeira me esperava em frente a um computador com internet. Aleluia.

Abri minha caixa de e-mails e a mensagem de uma empresa de marketing me parabenizava pelo Dia do Jornalista. Pensei: Ah, hoje é o dia do jornalista. Então estou comemorando no estilo da profissão: com sangue, suor e lágrimas.

Comecei a preparar o artigo. A pauta era sobre como a empresa pode utilizar o CRM para mapear os micros momentos do consumidor. Um texto técnico que não se faz em quinze minutos.

Eu tinha até as 8:30h do dia seguinte para redigir e publicar. Ao redigir o primeiro parágrafo, dou uma olhada no relógio: 17:42h. Imediatamente me ocorreu a infeliz ideia de perguntar para o atendente a que horas ele fechava a loja. Tem coisas que é melhor a gente não saber. Ele respondeu: 18 horas. Pensei: fudeu!

Organizei as pesquisas que havia feito, imprimi, fechei todas as janelas e limpei o cache da internet (se você usa internet de uma lanhouse nunca saia apressado de um computador sem antes ter limpado o cache).

De volta pra casa, com meu computador já recuperado do baque, mas ainda sem internet (a prescrição médica foi a troca de uma fonte), eu já tinha dados suficientes para enriquecer o artigo, então vamos ao Microsoft Word, não, espera. Meus cachorrinhos queriam sair, era hora do nosso passeio diário. Pensei que seria uma ótima oportunidade para relaxar um pouco o estresse. A ingenuidade é mesmo uma virtude.

Durante o passeio, a guia da coleira de um dos meus cachorros se soltou. Provavelmente eu não pluguei o gancho no lugar certo. Isso não seria um problema se ele não odiasse os gatos mais que Hitler odiava os judeus e, na casa da vizinha, não morassem vários gatinhos lindos, de todas as cores e tamanhos. As cenas que seguiram após esse ápice da aflição, prefiro nem comentar. Mas nenhum animal foi ferido.

Era noite quando concluí o trabalho, mas precisava acessar a internet para enviar. Não me preocupei. Afinal, antes de expirar o prazo eu estaria na lanhouse no dia seguinte para publicar, pensei. A ingenuidade é mesmo uma virtude. Fui pra cama com a sensação de ter esquecido alguma coisa e lembrei do iogurte grego e da tinta de cabelo.

Às 7:30 da manhã segui à pé para o centro da cidade e, ao chegar na lanhouse, que não havia aberto ainda, observei uma quantidade muito grande de fios de energia espalhados por toda a rua, desde o telhado das lojas até as calçadas. Uma cena escatológica.

O sábio jornalista Xico Sá diz que a mulher é esotérica, enquanto o homem só bate na porta da cigana depois que Inês é morta (está no livro Os Machões Dançaram). Desconfiei que alguma coisa muito ruim havia acontecido ali, mas não queria acreditar.

Aproveitei que a lanhouse ainda estava fechada e fui ao supermercado buscar o iogurte grego e a tinta de cabelo que eu havia esquecido no dia anterior e voltei bem rápido pra lá.

Blecaute na energia. Fui informada que um poste havia pegado fogo e queimado toda a rede elétrica naquela rua. Exatamente naquela rua, onde estava localizada a única lanhouse que funcionava com um provedor que não foi afetado pelos trovões.

Estaria eu dentro de um reality show do mundo corporativo, comandado por Roberto Justus? 

O tempo estava se esgotando. Eu tinha quarenta minutos para encontrar um computador conectado à internet. Eu, o iogurte grego e a tinta de cabelo seguimos em direção a outra lanhouse. O provedor fez manutenção em alguns locais e existia a possibilidade de achar algum funcionando. A ingenuidade é mesmo uma virtude.

Nada. Última chance: havia uma terceira lanhouse. Nesse momento eu parecia um zumbi na busca desenfreada por um cérebro. Segui apressada para lá, eu, o iogurte grego e a tinta de cabelo. Portas fechadas.

Não podia suportar a ideia da derrota. Enquanto o prazo não expirasse, havia esperança. Decidi apostar na sorte. Saímos eu, o iogurte grego e a tinta de cabelo escaneando o centro da cidade. Um barzinho, uma loja de calcinhas, agência dos Correios, frigorífico, mercado, supermercado, peixaria, casa de ração, banca de revistas.

Foi aí que avistei uma placa que continha um nome conhecido: Lívia Ribeiro. É uma empresa que além de fazer empréstimos para aposentados, oferece uma livraria bem diversificada e artigos para presentes. Conheci o lugar quando, certa vez, fui atraída por dois Minions que estavam expostos na vitrine.

Em poucos minutos, consegui formatar e publicar o artigo. Na caixa de entrada do meu G-mail, a pauta disponível da próxima atividade era: Quais são os efeitos do estresse no nosso organismo. Irônica, a vida.

monique-tmMonique Gomes é blogueira, jornalista freelancer certificada em Marketing de Conteúdo e Co-fundadora do Projeto TM Fácil.

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