Chamavam você de gordinha na escola?

livroEu não tenho nenhum tipo de preconceito quando o assunto é leitura. Se o tema me desperta alguma curiosidade, dedico parte do tempo com ele. Foi assim que conheci o livro Como ser Mulher, da jornalista britânica Caitlin Moran (Um divertido manifesto feminista) – um entre centenas de livros digitais instalados no meu tablet.

Com exceção dos momentos excessivamente ‘adolescênticos’, a autora aborda uma série de temas polêmicos – um deles, o feminismo, ou melhor, a verdadeira essência dele. O feminismo sem mi-mi-mi.

Apesar de achar que essas passagens sobre o feminismo são as mais relevantes, houve um momento da história que me deixou tocada. Caitlin, aos 16 anos, estava conversando com um garoto por quem era apaixonada, quando de repente ele pergunta: “Chamavam você de gordinha na escola?” – a partir daí ela descreve com muita propriedade o turbilhão de sentimentos que a dominaram. Você lê e pensa: isto não é ficção. É vida real.

Vou transcrever aqui:

Então, essa foi a primeira vez na vida que eu senti o mundo parar — apesar de não ter sido a última, é claro. Tudo ficou muito frio, imóvel e colorido por um segundo… Houve um flash. Alguém tirou uma foto nossa, para voltar a me mostrar no fim da minha vida, em uma apresentação de slides: “Aqui estão alguns dos seus piores momentos!”. Eu e Matty Vale, no gramado da catedral, em outubro de 1991. Porque eu sinceramente achei que ele não tinha reparado, há, há, há. Achei que eu tinha escondido aqueles 25 quilos extras com todo o cuidado, por baixo da minha camiseta nova e do meu colete, e eu falava rápido demais para ele conseguir ver. Achei que, como meu cabelo era comprido e brilhante e meus olhos eram azuis, isso ia ficar em segredo. Achei que ele talvez não tivesse reparado que eu era gorda. Eu disse — pronto, eu disse. Porque eu tenho dezesseis anos e peso cem quilos. A única coisa que faço é ficar à toa, comendo pão com queijo e lendo. Sou gorda. Somos todos gordos. A família toda é obesa. Nós não temos nenhum espelho de corpo inteiro em casa, então, sempre que quero me ver nua, preciso ir até a loja de departamentos e fingir que vou experimentar uma saia xadrez, então vou ao provador e olho para mim mesma ali. Sou virgem, não pratico esportes, não carrego objetos pesados, não vou a lugar nenhum para fazer nada, por isso meu corpo é essa coisa vasta, dormente e pálida. Lá está ele, sem jeito no espelho, parecendo à espera de más notícias. Ele é a má notícia. Adolescentes supostamente têm que ser esbeltas e gostosas. O corpo gordo de uma adolescente não tem utilidade para ninguém, muito menos para uma adolescente. É um albatroz. Uma ave branca de tamanho descomunal. Eu o arrasto como se fosse uma âncora. Sou só um cérebro dentro de um recipiente, digo a mim mesma. Isso é reconfortante. Sou um cérebro dentro de um recipiente. As outras partes não importam. É isso que meu corpo é. “As outras partes.” O recipiente. Sou inteligente, por isso não importa se sou gorda. Sou gorda. Tenho plena consciência do significado da palavra “gorda” — o que realmente significa quando a pronunciamos ou pensamos nela. Não é uma simples descrição como “morena” ou “34 anos”. É um palavrão. É uma arma. É uma subespécie sociológica. É uma acusação, uma aversão e uma rejeição. Quando Matt pergunta se costumavam me chamar de “gordinha” na escola, ele já está me imaginando nas camadas mais baixas da hierarquia escolar — já que estamos falando de Wolverhampton, em 1986, amassada entre as duas crianças asiáticas, o menino que gagueja, a testemunha de Jeová caolha, o aluno com necessidades especiais, o menino que é obviamente gay e o garoto tão magro que vivem perguntando se Bob Geldof já passou na casa dele. Matt vai ser solidário comigo, e isso significa que nunca vai me comer, e isso significa que eu vou morrer de infelicidade terminal — possivelmente dentro da próxima hora, talvez antes de terminar o cigarro, que percebo estar molhado por causa das minhas lágrimas. Na minha família, na minha família gorda, ninguém jamais diz a palavra “gordo”. “Gordo” é a palavra que a gente escuta sendo gritada no playground ou na rua — nunca foi permitida no âmbito da residência. Minha mãe não quer saber dessa imundície dentro da casa dela. Em casa, juntos, estamos a salvo. É como se fosse um espaço reservado para os lerdos e carnudos. Ali, nossos sentimentos não serão feridos porque nunca reconhecemos a existência da gordura. Nunca nos referimos ao nosso tamanho. Somos os elefantes na sala. Mas o silêncio é a coisa mais opressiva de todas. Porque existe uma aceitação silenciosa, um dar de ombros estoico em relação a todas as coisas do mundo que jamais serão para nós: shorts, piscinas, vestidos de alcinha, passeios no campo, patins, minissaias, blusas frente única, saltos altos, escalar, sentar em banquetas altas, passar na frente de construções, paquerar, beijar, ter autoestima. E perder peso, claro. A ideia de sugerir que não precisamos ser gordos — que as coisas podem mudar — é a perspectiva mais distante e irreal de todas. Somos gordos agora e seremos gordos para sempre. Não devemos nunca, jamais mencionar esse fato, e ponto final. É igual ao chapéu seletor do Harry Potter. Fomos escolhidos para o grupo dos gordos, e é isso que devemos ser para sempre, até a morte. É a nossa raça. Nossa espécie. Nosso modo de ser.
 Quando Matty Vale pergunta se me chamavam de gordinha, estou com o maiô de quando eu tinha doze anos por baixo da roupa — fazendo as vezes de corselete primitivo e absolutamente ineficiente — e encolho a barriga, sentindo muita dor, desde o meio-dia. “Não!”, eu respondo, e lanço uma levantada de sobrancelha com os olhos arregalados à la Ava Gardner. “Jesus!” Dou mais uma tragada no cigarro e paro de prender a barriga. Ele já sabe. Por que me incomodar? Não. Não me chamavam de gordinha na escola, Matt, sua coisinha gostosa e desatenta, em que eu vou passar os dois anos seguintes viciada, como se fosse crack, a ponto de roubar sua blusa e guardar embaixo do travesseiro, depois fazer você e sua namorada terminarem sem querer, quando contar um grande segredo para a pessoa errada, de modo que nosso pequeno círculo social explode de uma maneira espetacularmente confusa. Eles me chamavam de gordona. Por acaso a palavra “gorda” faz você se contorcer enquanto lê? Por acaso parece que estou sendo grosseira ou indelicada? 

Monique Gomes é jornalista freelancer, blogueira, cinéfila, isenta de glúten e certificada em Marketing de Conteúdo pela Rock Content.

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