Releia Spinoza e Voltaire, págs 153 a 253

Todo universitário sabe que o tempo para uma leitura prazerosa é praticamente inviável, pois o curso exige leituras e releituras. Esses últimos quatro anos em que eu estava cursando Letras, me sentia frustrada por não poder ler o que eu realmente queria. Os livros que comprei ou baixei da internet e as revistas por assinatura foram se acumulando durante esse tempo. Além da frustração, eu tinha uma sensação de que estava passando por um processo de ‘emburrecimento’. Não que o curso não fosse bom o bastante, mas é que as outras infinitas variedades de leitura e entretenimento cultural estavam impossibilitadas, e isso é meio brochante para a criatividade do ser humano…

Então, esse ano, livre, leve e solta do fardo de estudar, preparar monografia, essas coisas, posso me dar ao luxo de ler o que quiser nas horas vagas. Comecei a vasculhar meus livros e, ao invés de escolher um título novo, apanhei A História da Filosofia, de Will Durant, com a primeira edição datada de 1926, capa dura. Abri a primeira página e qual não foi a surpresa ao me deparar com um recado escrito para mim mesma, em 2003, ano em que li o livro.

O recado dizia o seguinte: Releia Spinoza e Voltaire, págs. 153 a 253.

Claro que eu seguiria as ordens, mas antes folheei as páginas do livro para fazer uma releitura das partes que sublinhei, entre outras anotações. Coisa interessante: ler as suas próprias observações sobre um livro depois de 9 anos. Ainda recordava o filósofo Spinoza com muita empatia, mas não lembrava o motivo. Reli as páginas e reavivei a memória. A paixão aconteceu porque eu pensava como ele. Spinoza contestava a Bíblia de várias formas, mas não negava Deus. Dizia: “A eterna sabedoria de Deus mostrou-se em todas as coisas, mas principalmente na mente do homem e, acima de tudo, em Jesus Cristo”. Em Voltaire, eu sabia que acima de tudo, o que me chamou a atenção foi o fato dele ter citado uma frase que eu sempre dizia: ‘Se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo’. Ele justificou: “Quando essa crença evita até mesmo dez assassinatos, dez calúnias, afirmo que o mundo inteiro deve aderir a ela”.

Leia abaixo um trecho onde Spinoza explica por que abandonou tudo pela filosofia:

Depois que a experiência me ensinou que tudo aquilo que acontece na vida comum são coisas vãs e fúteis, e quando percebi que todas as coisas que eu temia e que me temiam nada tinham de bom ou mau, a não ser o grau em que a mente era por elas afetada, decidi, por fim, investigar se havia alguma coisa que pudesse ser verdadeiramente boa e capaz de comunicar a sua bondade e pela qual a mente pudesse ser afetada a ponto de excluir todas as outras coisas; decidi investigar se podia descobrir e obter a faculdade de gozar uma contínua felicidade suprema, por toda a eternidade(…) Eu conhecia as muitas vantagens adquiridas com honra e a riqueza, e sabia que seria impedido de adquirí-las se quisesse investigar seriamente uma nova questão (…) Mas quanto mais se possui qualquer uma das duas, mais aumenta o prazer e, em consequência, mais se é estimulado a aumentá-las; ao passo que, em qualquer momento que nossa presença é frustrada, surge em nós a mais profunda dor. A fama também tem uma grande deficiência, a de que se perseguimos teremos que dirigir nossa vida de maneira a agradar às concepções arbitrárias dos homens, evitando aquilo de que eles não gostam e procurando o que os agrada (…) Mas só o amor para com uma coisa eterna e infinita alimenta a mente com um prazer a salvo de todo o sofrimento (…) O maior bem é o conhecimento da união da mente  com toda a natureza (…) Quanto mais a gente sabe, melhor ela compreende suas forças e a ordem da natureza; quanto mais compreende suas forças ou seu poder, melhor será capaz de dirigir a si mesma e estabelecer as leis para si mesma; e quanto mais compreender a ordem da natureza, mais facilmente terá condições de libertar-se de coisas inúteis; o método é este.

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Um comentário sobre “Releia Spinoza e Voltaire, págs 153 a 253

  1. Besta quem pensa que o emburrecimento é degradante. Muito pelo contrário! Trás um prazerosíssimo sentimento de alienação, desinteresse e despreocupação com mundo e seus problemas.

    Ah! A alienação trás Deus para perto, também. E deus é a nossa maior invenção…

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