A Substância: por que Elizabeth não parou?

A Substância (2024, MUBI) é um filme escrito, produzido e dirigido por Coralie Fargeat, um projeto liderado por feministas que oferece uma nova perspectiva sobre a maneira como as mulheres mais velhas são tratadas na mídia. Elisabeth Sparkle (Demi Moore) é uma estrela de Hollywood querida e valorizada pelos fãs e colegas de trabalho. Até fazer 50 anos. Sua autoestima começa a desmoronar por conta da maneira distorcida com que ela é vista pelos outros, incluindo o chefe (Dennis Quaid). Ele quer alguém mais jovem para substituir Elisabeth. Então, ela se depara com a oportunidade de experimentar uma droga invasiva que promete transformá-la em uma versão melhor de si mesma. A substância vem com instruções rígidas e específicas. O que é A Substância? É uma fórmula biológica que permite a uma pessoa criar uma versão mais jovem e idealizada de si mesma a partir do próprio corpo. Funciona como um soro de transformação, que, ao ser injetado, o corpo original passa por uma reação intensa, criando uma versão rejuvenescida. No processo, a pessoa se divide em duas: o “eu mais jovem”, que é o resultado transformado, e o “eu original”, que fica catatônico, sendo alimentado por uma intravenosa de nutrientes. A separação é temporária: a versão jovem precisa reverter para o corpo original a cada sete dias para que o processo continue funcionando e ambos sobrevivam. Quem é o fornecedor da droga? O fornecedor da droga é uma figura enigmática, pois não aparece. O personagem atua como um intermediário que coordena a entrega do soro para Elisabeth, mas a organização se mantém completamente anônima, cuja identidade nunca é revelada diretamente. O homem adota uma postura impessoal e neutra. Ele fornece o soro, estabelece as regras de uso e responde apenas às perguntas que Elisabeth faz sobre o processo, sem incentivá-la nem a continuar, nem a desistir. Ou seja, a sociedade faz pressão, mas a escolha é do usuário. Por que Elizabeth não parou o procedimento? Apesar da intenção de eliminar Sue (Margaret Qualley) depois de tantos problemas, Elisabeth hesita. Ela tenta finalizar o procedimento mas, ao perceber seu reflexo mais jovem, muda de ideia devido ao apego que ainda sente pela versão idealizada de si mesma. Ainda que Sue represente uma ameaça, Elisabeth não consegue abandonar totalmente a projeção de perfeição. No fim, a incapacidade de confrontar e aceitar seu próprio envelhecimento a leva a poupar Sue, mesmo que isso custe sua própria vida. Por que Sue mata Elisabeth? À medida que Sue experimenta o sucesso, se torna cada vez mais difícil voltar ao corpo original. Ela rejeita a si mesma na versão mais velha e desconsidera as advertências sobre os efeitos negativos de prolongar a “presença” fora dos limites da Substância. Matando Elisabeth, ela elimina a própria fonte de estabilidade, já que o corpo matriz fornecia o soro essencial para manter Sue viva. Sem essa conexão, Sue rapidamente se deteriora, transformando-se em uma figura monstruosa e irreconhecível. Por que Sue deteriora? Com Elisabeth morta, Sue não consegue mais se estabilizar, um processo extremamente importante para manutenção do corpo novo. Assim, o corpo dela começa a se deteriorar em um ritmo rápido, com dentes, unhas e cabelos caindo por trás dos bastidores. Em uma tentativa desesperada, Sue injeta em si mesma o soro original, que desencadeia uma terrível mutação, transformando-a em uma figura grotesca com partes desordenadas do corpo e o rosto de Elisabeth na nuca. Explicação A Substância De forma irônica, A Substância começa e termina na calçada da fama. A cena final nos leva de volta ao ponto inicial do filme: a estrela de Elisabeth Sparkle na Calçada da Fama. No início, vemos sua carreira desfilar diante de nossos olhos — da adoração do público na noite de estreia às lembranças de quanto seus fãs a amavam. Quando sobe ao palco pela última vez, Sue tenta convencer o público a aceitá-la como ela é, mas, rejeitada e humilhada, a mulher explode em meio à multidão, espalhando sangue e horror para todos os lados. No final, Sue tropeça até a Calçada da Fama, onde se desintegra, deixando apenas o cérebro de Elisabeth separado do corpo. E isso é muito simbólico, pois separar o cérebro do corpo traz um momento de libertação: pela primeira vez, ela se sente livre dos julgamentos que a prendiam, livre para existir sem se preocupar com a aparência ou as expectativas da sociedade. Qual a mensagem do filme A Substância? A trama critica como a sociedade e, especialmente, os meios de comunicação, impõem padrões irreais de beleza, incentivando a busca incessante por um corpo perfeito e jovem. Essa pressão é um dos principais fatores que levam Elisabeth a tomar decisões extremas. Além disso, o filme explora a misoginia sistêmica, destacando como as mulheres são muitas vezes desvalorizadas à medida que envelhecem. A indústria do entretenimento tem uma participação especial nesse contexto em que mulheres são tratadas como descartáveis. 3 Filmes de Terror pra quem gostou de A Substância Embora não existam filmes como “A Substância”, de Coralie Fergeat, há muitos filmes de terror exagerados sobre transformação que são carregados de metáforas e críticas sociais: Men: Faces do Medo O horror corporal pode frequentemente ser um gênero controverso, como é visto na performance do filme de Alex Garland, Men: Faces do Medo. Após a morte do marido, Harper (Jessie Buckley) sai de férias no campo em uma tentativa de fugir da vida por um tempo. No entanto, ela percebe que algo de muito, mas muito bizarro ali. A Avó (2021) Quando Susana volta para sua cidade natal em busca de uma cuidadora para sua avó Pilar, o que deveria ser uma visita breve se transforma em um pesadelo. Aos poucos, Pilar começa a agir de forma estranha, e eventos aterrorizantes passam a acontecer ao redor delas. A Mosca (1986) Não tem como falar de filmes de terror corporal sem mencionar David Cronenberg, o verdadeiro mestre desse subgênero no cinema. Entre os filmes mais marcantes do diretor, A Mosca é, sem dúvida, o mais impactante. Ele
Pequenas Cartas Obscenas é real?

Pequenas Cartas Obscenas (2024, MAX) é uma comédia deliciosa estrelada pelas lendas Olivia Colman e Jessie Buckley que aborda o escandaloso caso real de uma senhora que escrevia cartas anônimas e extremamente ofensivas na década de 20, em Littlehampton. Em uma entrevista ao Digital Spy, Anjana Vasan (atriz que interpreta a policial Moss no filme), disse que todo o elenco ficou perplexo com a história. “Fomos até nossos computadores e fizemos muitas pesquisas no Google, descobrindo o que realmente aconteceu e o quanto era real, e o quanto era imaginação de Jonny Sweet. Surpreendentemente, há muitos fatos reais no filme.” – revelou. Continue a leitura para conhecer a história verdadeira de Pequenas Cartas Obscenas. Pequenas Cartas Obscenas é uma história real? Sim. Nos anos 1920, na tranquila cidade litorânea de Littlehampton, em West Sussex, duas vizinhas compartilharam uma amizade que, com o tempo, se transformou em uma rixa amarga. Edith Swan, uma residente local, e Rose Gooding, mãe solo irlandesa conhecida pelo seu jeito irreverente e língua afiada, inicialmente tinham uma relação amigável. Mas um desentendimento aparentemente bobo sobre o jardim comunitário acabou com qualquer harmonia entre as duas. Para Edith, o conflito não foi apenas um simples atrito entre vizinhas — ela decidiu buscar vingança de uma maneira que utilizasse o peso do preconceito da época contra a ex amiga. Logo, começaram a aparecer cartas anônimas recheadas de insultos direcionados à Edith. O caso chamou a atenção e cresceu a ponto de se tornar um escândalo nacional, chegando ao Parlamento britânico e chocando a opinião pública. A surpresa maior? A própria Edith era a autora das cartas, enviando-as para sua casa e esperando que as autoridades suspeitassem de Rose. Ela queria que a sociedade julgasse a vizinha pelo passado e comportamento “inadequado” e assim a punisse por um crime que não cometeu. “Estimada Edith, você é uma puta velha safada. Você é uma cretina fingida, uma sirigaita. Seu lugar é no inferno. Você é uma cadela fedorenta e deprimente também” – Conteúdo de uma das cartas. Rose é presa de verdade? Sim. Quando o caso ganhou destaque na época, a polícia de West Sussex prendeu Rose apesar da falta de evidências. Ela enfrentou julgamento em setembro de 1920 e foi acusada de difamação criminal (via Daily Mail ). Rose passou três meses na prisão, separada da filha. No momento em que voltou para casa, Edith retomou o envio das cartas, levando Rose a ser condenada novamente com uma sentença maior – 12 meses de prisão com trabalho forçado. “Me deixa sair dessa porcaria de cela, seu velho brocha decadente que não controla a própria urina” – disse a personagem de Rose, no filme Pequenas Cartas Obscenas. Àquela altura, a advogada de Rose e a policial Gladys Moss estavam entre o grupo que suspeitava que Rose era inocente o tempo todo e tentaram provar isso. Quem é a policial feminina Moss na vida real? Gladys Moss foi a primeira policial mulher em Sussex, no ano 1919. Em um período de grandes mudanças sociais, sua presença na força policial trouxe uma nova abordagem para casos que envolviam suspeitas em torno das relações comunitárias. Ela foi designada para monitorar as famílias Gooding e Swan, pois havia desconfiança sobre a autoria das cartas anônimas. Durante uma das vigílias de Gladys, ela testemunhou Edith atirando um pedaço de papel para o quintal da delegacia. Esse papel, que continha ofensas direcionadas à esposa de um oficial, foi recolhido conforme instruído. Gladys confrontou Edith sobre a carta, mas ainda precisava de mais provas para uma condenação definitiva. Em outubro de 1921, a polícia prendeu Edith por difamação criminal, mas, surpreendentemente, o júri a absolveu no julgamento. A partir daí, as autoridades intensificaram a investigação com o apoio do General Post Office (GPO). Os selos foram marcados com tinta invisível, e o sub-correio foi orientado a vendê-los a Edith, o que resultou na confirmação de sua culpa. Como a verdadeira Edith é descoberta? O advogado de Rose ofereceu uma amostra da caligrafia de Edith, algumas páginas com instruções de tricô e uma receita de chutney que ela compartilhou com a vizinha quando elas ainda eram amigas. Ele apontou as semelhanças com a caligrafia das cartas de caneta marcada, mas o juiz se recusou a ouvir. Afinal, como uma mulher tão religiosa e recatada poderia usar uma linguagem tão chula? Desmascarar Edith provou ser mais difícil do que o esperado. Foi só logo após a segunda sentença de prisão de Rose que as evidências contra Edith se tornaram fortes o suficiente para a polícia dar ouvido aos fatos. Esperando ajudar o caso, Edith escreveu mais obscenidades em um caderno e o enviou para a delegacia de polícia, alegando que o encontrou perto da casa de Rose. Como o caderno chegou com uma carta assinada pela própria Edith, informando a polícia sobre sua descoberta, as similaridades em ambos os conjuntos de caligrafia não podiam mais ser ignoradas. Por que Edith escreve cartas falsas? No filme, Edith é apresentada como uma mulher frustrada e com uma raiva reprimida, principalmente em relação ao pai, um homem controlador que a fazia se sentir constantemente sufocada e incapaz de se expressar livremente. Esse controle rigoroso a impedia de ser autêntica e de se comunicar como gostaria, o que a levava a internalizar a frustração, buscando uma forma de extravasar o sentimento. Assim, ela criava um mecanismo de “vingança” indireta, projetando o que queria dizer nas cartas. Com o anonimato, ela podia fazer isso sem comprometer a imagem de mulher recatada e religiosa que mantinha, transferindo a responsabilidade pelo conteúdo ofensivo para sua vizinha, Rose. Isso também lhe permitia “punir” Rose, uma mulher livre. Edith Swan real está presa? Em julho do mesmo ano, um júri considerou Edith culpada, sentenciada a 12 meses de trabalho forçado. O nome de Rose foi limpo. Gladys Moss ganhou uma placa com seu nome em Littlehampton. E nós ganhamos essa obra-prima que é Pequenas Cartas Obscenas. Um registro de 1939 mostra que, naquele momento, Edith estava morando na
A Fera: por que todos parecem suspeitos?

A Fera (Beast/2018) é o tipo de filme que você tem que bancar o detetive. Quem está matando mulheres em Jersey? Temos uma mulher atormentada, um bonitão esquisito, uma família totalmente disfuncional e, pra fechar o pacote, um policial apaixonado. Cada momento do filme é uma exposição de como a violência psicológica também pode destruir uma pessoa, moldando não apenas a mente, mas também a alma. Jessie Buckley está impecável como protagonista. >>> O que você vai ler aqui: A Fera Final Explicado Moll (Jessie Buckley, mesma atriz de Estou Pensando em Acabar com Tudo), mora em Jersey. No dia do seu aniversário, vemos uma família aparentemente feliz comemorando. Logo, somos apresentados a mãe de Moll, Hillary (Geraldine James). O comportamento de Hillary é extremamente controlador e até opressor. Descobrimos que Moll sofria bulliyng quando criança; certa vez, surtou e quase matou uma coleguinha a tesouradas. Por isso as pessoas daquela casa querem manter Moll nas rédeas, assim ela canta no coral. Clifford (Trystan Gravelle), o policial que nutre sentimentos por Moll, não consegue separar vida pessoal da profissional, pois foge da ética quando, ao entrevistar Pascal (Johnny Flynn) sobre os crimes, deixa claro que o motivo da abordagem hostil é ciúmes. Harrison (Oliver Maltman), o irmão insensível de Moll, a provoca com palavras, enquanto a irmã, Polly (Shannon Tarbet) faz o mesmo, inclusive dizendo a Pascal durante um almoço: “Cuidado que ela é perigosa!”. Polly demonstra se sentir superior a Moll. Não é surpreendente que a tímida e vulnerável protagonista se apaixone pelo primeiro homem que a defende, aquele que todos consideram ser “má notícia” — o jovem que pode muito bem ser o responsável pelo título do filme: “A Fera”. Qual a história de Moll? Durante o filme, Moll é submetida a uma série angustiante de violências emocionais, psicológicas e físicas. Desde a infância marcada por bullying e um incidente traumático envolvendo uma colega até a vida adulta, onde enfrenta uma família opressora. A mãe faz uma performance de desprezo sutil e críticas constantes, é uma presença dominante que frequentemente diminui Moll, desde sua escolha de roupas até suas aspirações. Além do ambiente familiar tóxico, ela também enfrenta situações violentas e ameaçadoras no dia a dia. Moll é continuamente confrontada com sua própria vulnerabilidade e a falta de apoio ao seu redor. A pressão social e os padrões de comportamento da pequena comunidade reforçam seu isolamento e dificultam sua busca por autenticidade. O relacionamento com Pascal, inicialmente visto como um refúgio, se revela como outro terreno fértil para uma turbulência emocional. Enquanto ela se entrega a um amor tempestuoso e proibido, é lembrada das dúvidas sobre a integridade de Pascal e sua possível conexão com os horrores que assolam a ilha. Cada momento do filme é uma exposição de como a violência pode ser sorrateira, moldando não apenas a mente, mas também a alma de Moll. Jessie Buckley traz uma interpretação poderosa e visceral à personagem. Por que o policial parece suspeito? Clifford demonstra um interesse romântico não correspondido por Moll. Isso pode levantar questões sobre seus motivos ao investigar os crimes na ilha, especialmente quando sua afeição por Moll pode afetar sua objetividade profissional. Proximidade com o caso: Como um membro da aplicação da lei local, o policial está intimamente envolvido na investigação dos assassinatos em série. Isso por si só não o torna culpado, mas sua presença constante pode levantar dúvidas sobre sua conexão com os eventos e suas verdadeiras intenções. Ambiguidade de caráter: A interpretação do policial por Gravelle pode sugerir nuances e ambiguidades em seu comportamento e motivações. Seu relacionamento com Moll e suas interações durante a investigação podem deixar o público em dúvida sobre suas verdadeiras intenções e até onde ele está disposto a ir para alcançá-las. Por que Moll também parece suspeita? Moll demonstrou tendências violentas, como o incidente traumático na infância onde quase matou uma colega com uma tesoura. O passado sombrio deixa espaço para questionamentos sobre sua estabilidade emocional e capacidade de cometer atos violentos no presente. A lealdade a Pascal e a disposição de protegê-lo, apesar da desconfiança da comunidade, podem colocá-la sob suspeita de conivência ou cumplicidade. Mas, depois, descobrimos que ela agiu de forma empática porque se identificava com os demônios dele. Tipos de violência que Moll sofreu A Fera: quem descobre o assassino? Moll. Durante uma discussão, Pascal sufoca a namorada até quase matar, ela consegue fugir, enquanto ele se mostra arrependido e pede desculpas. A partir daí, e também pela forma como o assassino tirou a vida das vítimas, ela teve certeza de que o serial killer era ele. O filme A Fera é baseado em história real? Sim. O diretor Michael Pearce cresceu em Jersey e sempre teve a intenção de filmar o primeiro longa lá, mas foi só quando lembrou do caso da Besta de Jersey, um serial killer chamado Edward Paisnel, que encontrou um motivo para usar esse local específico. Quem é Edward Paisnel, a besta de Jersey? Por mais de uma década, os moradores da Ilha do Canal de Jersey viveram com medo de um intruso mascarado, conhecido como a “Besta de Jersey”. Entre 1957 e 1971, essa figura aterrorizante atacou, estuprou e sodomizou mais de 13 mulheres e crianças. A polícia descobriu que o agressor era Edward Paisnel, um homem aparentemente normal, pai de família, que até se vestia de Papai Noel para órfãos no Natal. Os crimes começaram em 1957, quando ele atacou uma jovem em um ponto de ônibus. Ele continuou a usar pontos de ônibus e campos isolados para cometer crimes, e em 1960, começou a invadir casas, atacando até crianças em seus próprios quartos. A polícia demorou a identificá-lo, mas finalmente, em 1971, Paisnel foi preso por acaso. Ele ultrapassou o sinal vermelho com um carro roubado. No carro, encontraram uma máscara sinistra e outros itens incriminadores. Ele foi condenado por 13 acusações de estupro e agressão sexual e sentenciado a 30 anos de prisão. Foi libertado em 1991 por bom comportamento e morreu de
Men Faces do Medo: qual o significado do filme?

Men Faces do Medo (2022/Prime Video), além de ser um excelente terror, tem uma série de metáforas e simbolismos bem legais. Por isso, o filme não deve ser interpretado literalmente, mas com uma observação minuciosa e atenta. >>> O que você vai ler neste artigo: Men Faces do Medo Final Explicado Men conta a história de Harper Marlowe (Jessie Buckley), uma mulher que viaja para o interior da Grã-Bretanha após a morte do marido, James, de quem ela não guarda exatamente boas lembranças. Durante os flashbacks, descobrimos que Harper queria se divorciar porque ele era abusivo emocionalmente, manipulador e até mesmo ameaçou tirar a própria vida se ela o deixasse. Depois de uma briga, ela testemunha a queda de James da varanda do andar de cima para a morte, aparentemente por suicídio. Mas as memórias assustadoras e a culpa continuam assombrando Harper, transformando sua jornada de fuga em um verdadeiro pesadelo, com encontros cada vez mais estranhos e aterrorizantes com homens sinistros. Qual o significado da macieira? No filme há muitas referências religiosas. Quando Harper chega à casa de Geoffrey pela primeira vez, pega uma maçã para comer após uma longa viagem. A reação imediata de Geoffrey é brincar que ela não deveria ter comido o “fruto proibido”, sugerindo uma piada. A árvore de maçã é destacada ao longo do filme. Ela simboliza o pecado original do Éden e de Eva. No entanto, em Men , Harper comendo a maçã não é considerado um pecado. A resposta quase ameaçadora de Geoffrey mostra uma forma de controle. Por que Harper é perseguida por um homem nu? Ao longo do filme, a personagem de Harper é frequentemente culpada e envergonhada pelos atos e pensamentos dos homens ao seu redor, incluindo o marido. Isso é traumático para ela, que não é responsável pelas ações dos outros personagens. A figura nua que a assombra pode representar tanto Adão quanto o poder que ele possui. Também pode ser interpretada como uma representação do ídolo do Homem Verde, simbolizando o renascimento, a fertilidade e a natureza. Observe como os jardins e bosques ao redor da casa são exuberantes e vibrantes, em contraste com os locais mais sombrios e desbotados da cidade. O renascimento é simbolizado quando Harper enfrenta a culpa que lhe é atribuída e confronta James no final do filme. No desfecho de Men, Harper parece estar menos assustada e aparentemente em paz. O homem nu muitas vezes a observa, é como um lembrete constante de como Harper, como mulher, não consegue escapar das pressões sociais, do medo e das críticas. Ela não pode simplesmente existir e estar sozinha livremente; o medo e o trauma são um fardo pesado para ela carregar. Por que todos os homens são iguais em Men Faces do Medo? Em uma abordagem semelhante a filmes como Anomalisa, todos os personagens masculinos de Men, exceto o marido de Harper, são interpretados por Rory Kinnear. Desde uma criança até um padre e um policial, todos esses homens encarnam os mesmos padrões de masculinidade tóxica, que carregam desde o nascimento. Para Harper, todos eles representam uma ameaça igualmente perigosa. Mesmo Geoffrey, o proprietário da casa que Harper está alugando, inicialmente parece excêntrico, mas bem-intencionado, apenas para revelar-se tão agressivo e perigoso quanto os outros homens. Explicação Men Faces do Medo Essa resposta vem da análise dos símbolos religiosos encontrados na igreja do Vigário. Ao explorar a floresta, Harper se depara com uma pia batismal de pedra ornamentada com duas figuras esculpidas conhecidas como grotescas. De um lado, há um rosto cercado por folhas decorativas, conhecido como Homem Verde, simbolizando a fusão entre o homem e a natureza. Do outro lado, está a Sheela Na Gig, representando uma mulher nua curvada, com a vagina aberta. Embora os estudiosos debatam sobre a origem e o significado dessas figuras, muitos acreditam que representem elementos pagãos da natureza e da fertilidade. No entanto, os homens em Men distorcem esses símbolos para justificar um sistema de opressão baseado no gênero, fortalecido pela religião organizada. A disposição dessas imagens é crucial para a mensagem de Garland. O Homem Verde encara para fora, enfatizando o domínio masculino na igreja. Enquanto isso, a Sheela Na Gig está voltada para trás, sugerindo que a representação do nascimento ou do corpo feminino é algo para se esconder ou envergonhar. Conforme o sol se põe, o Homem Verde é banhado por uma luz brilhante e virtuosa, enquanto a Sheela Na Gig é obscurecida por uma sombra vermelha profunda, simbolizando a difamação da forma feminina. Por que todos os homens se multiplicam? O horror corporal é uma das facetas mais terríveis de Men. Geoffrey dando à luz o homem nu, James, e outros personagens sugerem que o ciclo de trauma infligido às mulheres pelos homens é geracional e aparentemente interminável. Cada homem no filme culpa Harper por algo que fizeram ou sentiram – James empregou abuso emocional para fazer Harper se sentir responsável caso algo acontecesse com ele, enquanto o Vigário acusou Harper de ter poder sobre ele, culpando-a por seus próprios desejos e objetificando-a em um momento de vulnerabilidade. O filme implica que esses comportamentos são aprendidos e ensinados a todas as gerações, explicando por que a cena do parto continuou. Em última análise, mostra como essa misoginia afeta as mulheres e molda suas experiências no mundo, onde muitas vezes parece que nenhum lugar é verdadeiramente seguro. Por que James aparece no final de Men? James, embora seja o único homem com aparência diferente, está ligado a todos os outros homens, como é revelado durante o nascimento. A forma como trata Harper durante a cena final confirma ainda mais que seu comportamento sempre foi infantil e manipulador, já que ele é o mesmo visto nos flashbacks, mas desta vez ele acabou de nascer. Pode-se argumentar que Men, embora seja uma história liderada por mulheres, coloca seu foco nas ações e pecados dos homens. Muito do que o público aprende sobre Harper está relacionado ao seu casamento abusivo e ao sentimento de medo dos
Estou Pensando em Acabar com Tudo | Final explicado

Se você assistiu a Estou Pensando em Acabar com Tudo (Netflix/2020) e foi arrebatado por uma sensação de estranheza, veio ao lugar certo. Baseado no livro de mesmo nome de Iain Reid, esse é um daqueles filmes que você acha confuso e, quando menos espera, já tá criando várias teorias na cabeça. Continue a leitura para entender os significados dessa obra-prima intrigante, densa e hipnótica. >>> O que você vai ler neste artigo: Estou Pesando em Acabar com Tudo Final Explicado Pra começar, o próprio nome do filme é ambíguo: “estou pensando em acabar com tudo”. Tudo o quê? Acabar com o relacionamento? Acabar com a vida? É dirigido por Charles Kaufman, autor de O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. A mulher está com dúvidas sobre o relacionamento, daí o título do filme, mas antes de conhecer a história essa frase me levou a questionar se o tema da obra seria suicídio: “acabar com tudo”. Pensando bem, acho que isso foi proposital. Jessie Buckley é Lucy e Jesse Plemons é Jake. Ela é poetisa e / ou garçonete e / ou gerontologista e / ou estudante de medicina veterinária e / ou física quântica, dependendo de como você a vê. Jake é sempre apenas Jake, no entanto. Os dois namoram há algumas semanas. Frequentemente ouvimos os pensamentos dela narrando que não vê futuro naquele relacionamento. Mas ali estão eles, viajando para a fazenda em Oklahoma para conhecer os pais dele. O poema arrebatador Durante a viagem, Lucy recita de memória um poema profundamente comovente que escreveu sobre “ir para casa” e as lágrimas escorrem pelo rosto. Jake diz que sentiu que era sobre ele e Lucy responde que a especificidade pode ser universal. Segue um trechinho: Voltar para casa é terrível seja recebido com lambidas no rosto pelos cães ou não. Tenha você uma esposa ou apenas uma solidão em forma de esposa esperando você… … Você lamenta a dor de dias idênticos, que é melhor aceitar de uma vez. Bem… enfim, você voltou. O sol sobe e desce como uma puta cansada. O mau tempo imóvel como um membro quebrado enquanto você não para de envelhecer. Nada se move além da mudança das marés de sal no seu corpo. Quais as mudanças na linha do tempo? Os pais de Jake são jovens ou idosos, dependendo da parte do filme que estamos assistindo. A história se desenrola ao longo de 134 minutos em nossas vidas e uma noite na vida de Lucy e Jake ou suas vidas inteiras ou em um piscar de olhos ou possivelmente para sempre. A mãe é interpretada por Toni Collette e o pai por David Thewlis. Ambos estão incríveis no papel. Mas o ponto principal de toda a história é que, de forma intermitente, o filme muda para um zelador solitário de uma escola. A certa altura, ele está em uma sala de descanso assistindo a uma comédia romântica estrelada por duas pessoas que se parecem muito com Jake e a namorada. Outra vez, está assistindo os alunos ensaiarem uma peça no colégio. São momentos breves, mas fundamentais para o desenrolar dessa instigante obra. Se você está se perguntando se deve ler o livro Estou Pensando em Acabar com Tudo primeiro ou assistir ao filme, a resposta é tanto faz, pois ambos têm versões diferentes para o final. Jake e o zelador são a mesma pessoa? Jake é o zelador no passado. Essa informação se torna evidente quando Lucy vê os uniformes dele na lavadoura de roupas. Lucy é uma invenção da imaginação de Jake, é alguém que Jake conheceu quando era mais novo, em uma noite de curiosidades como contam a seus pais. Só que ele nunca pediu o número dela, então eles nunca foram um casal. Lucy e Jake são a mesma pessoa? O fato de estar na imaginação dele explica por que existem tantas inconsistências, como o nome de Lucy e o que ela faz para viver mudando com frequência. É como se Jake estivesse brincando com o que mais agradaria a seus pais. E isso também explica por que, quando olham para uma foto de Jake na parede da sala de quando ele era criança, Lucy pensa que se parece com ela, porque é a imagem dela, ou seja, ela e ele são a mesma pessoa. Ela vagueia pelo quarto de infância. O lugar está repleto de pilhas de filmes, livros, pinturas (uma delas igual a que ela pintou) e outros materiais. Um volume se destaca: 1.001 Noites no Cinema, uma seleção das resenhas da ex-crítica de cinema Pauline Kael (o livro se baseia em várias coleções anteriores). Jake tem pensamentos suicidas? Mas por que Jake está pensando no que poderia ter sido? Na narração, ‘Lucy’ fala sobre como está “pensando em acabar com tudo“, o que se presume ser sobre o relacionamento deles, mas provavelmente é Jake pensando em se matar. Durante o jantar, ‘Lucy’ recebe mensagens de telefone que sugerem que há “apenas uma questão para resolver”. Não fica claro no filme qual é essa pergunta, mas no livro é: “O que você está esperando?” Jake está tentando imaginar que havia uma maneira de sua vida ter sido melhor, mas ele simplesmente não consegue, já que mesmo em sua imaginação Lucy está planejando terminar com ele. Quem é Zemeckis? Uma cena mostra Jake sentado, almoçando e assistindo a um filme na televisão. São os minutos finais de um romance ambientado em uma lanchonete. Os créditos mostram a frase: “Dirigido por Robert Zemeckis”. Kaufman disse em entrevista que tudo aconteceu ao acaso, quando seu assistente de direção sugeriu depois de examinar uma lista de nomes de diretores online. Zemeckis é um dos maiores diretores comerciais dos últimos 30 anos. Por que os pais de Jake mudam? Ao longo de uma noite muito assustadora, os pais de Jake passam por uma série de mudanças físicas dramáticas, de jovens para velhos e vice-versa. Jake está basicamente vivendo os vários estágios da vida de seus pais. Esse processo complicou a ideia