Será que Green Book é um filme sobre o branco que ensina um homem a ser negro?

Antes de assistir ao filme Green Book, li uma crítica na qual dizia que o homem branco ensinava o negro a ser negro. Como assim?, pensei. Outra mencionava o fato de o diretor ser branco e, por esse motivo, a narrativa foi comprometida. Fiquei curiosa para analisar esses pontos pessoalmente. Então, vamos lá bater um papo sobre Green Book, o principal ganhador do Oscar 2019.

Antes de tudo, uma breve sinopse

Green Book: O Guia conta a história real da amizade inesperada entre Don Shirley (Mahershala Ali), um pianista famoso, e Tony Lip (Viggo Mortensen), um faz-tudo.

Desempregado, Tony aceita o convite do músico para trabalhar como motorista durante uma turnê em diversas cidades racistas no sul dos EUA em 1962.

Durante a viagem, Don Shirley sofre os piores preconceitos pelo fato de ser negro. Tony, que é racista, começa a ver de perto os problemas causados pela segregação racial.

O que, de fato, faz o filme fluir tão bem são as interpretações de Mortensen e Ali. Cada um opera com um tom absurdamente diferente do outro.

Enquanto o primeiro é a caricatura fiel do malandro, com gestos e sotaques realçados, o segundo é culto, sofisticado, reservado, com uma profunda angústia dentro do peito.

Será que Green Book é um filme sobre o branco que ensina um homem a ser negro?

Na estrada, no meio da viagem, Tony está dirigindo e coloca algumas músicas para tocar no rádio, entre elas, Won´t be Long, da Aretha Franklin.

O primeiro espanto do motorista é que Don Shirley, que está no banco de trás, não conhece aquelas canções. A gente também se surpreende. Acontece que, na vida real, Don Shirley tocava piano desde os dois aninhos. O jazz foi uma total imersão e, aos dezoito, já tocava profissionalmente.

Para entender melhor, vamos imaginar um exemplo bem esdrúxulo: é mais ou menos como se o nosso Tom Jobim, se fosse vivo, dissesse que nunca ouviu as músicas de um cantor sertanejo… Sem entrar no mérito da qualidade musical, claro. É só um exercício pra gente sair do lugar comum. Enfim, o nosso conhecimento de mundo também depende do que colocamos na pasta de prioridades. Para Don Shirley, a prioridade sempre foi o jazz, não o rock.

Outro momento em que Tony fica extremamente indignado é quando descobre que o músico não tem hábito de comer frango frito. É que, na concepção dele, frango frito é o alimento universal dos negros. Nessa cena ele diz mais ou menos assim: “Você não conhece o seu povo? O seu povo come frango frito, mingau e couve refogada” e, ainda: “Eu sou mais negro que você!”.

Afinal, o que é ser negro? Será que significa fazer ou gostar das mesmas coisas? Será que significa conservar tradições da época da escravidão? “Todo homem branco gosta de comer camarão.” -> essa afirmação faz algum sentido?

É aqui que entram os estereótipos.

O que são os estereótipos?

São recursos que simplificam o mundo social, já que reduzem a capacidade de pensar. Em outras palavras, é um tipo de julgamento feito com base em uma ideia que, na grande maioria das vezes, é equivocada.

Por exemplo:

  • toda mulher fala demais;
  • todo homossexual é promíscuo;
  • toda loira é burra.

No caso de Green Book, o estereótipo é racial. Para contextualizar, é importante conhecer o passado. As leis de Jim Crow vigoraram entre os anos de 1876 e 1965. Jim Crow era um personagem criado especialmente para ridicularizar a aparência e o comportamento dos negros.

Dessa forma, a sociedade alimentava a ideia de que eles eram inferiores e menos desenvolvidos intelectualmente. Isso era repassado de geração a geração. O próprio oprimido se via como inferior, até (mais ou menos) o dia em que Rosa Parks se negou a ceder o lugar a um branco no ônibus.

Assim como Jim Crow, a sociedade racista da época usava outros recursos para diminuir os negros. A conotação negativa do estereótipo do frango frito só se popularizou com O Nascimento de uma Nação, um filme que defendeu o surgimento da Ku Klux Klan.

Na realidade, sempre foi um prato típico do sul americano, o local mais racista do pedaço. As mammies (mulheres negras que trabalhavam e cuidavam dos filhos de uma família branca) eram especialistas em fazer o alimento, ave abundante na região. Todos admiravam as receitas que elas preparavam.

Será que Green Book é um filme sobre o herói branco?

Alguns críticos e membros da família de Don Shirley reclamaram que a obra foi retratada sob o ponto de vista de um homem branco, o motorista, o herói, o salvador. Eu sei que cada um tem a sua própria perspectiva, mas assista ao filme e reflita: quem dos dois realmente foi salvo? Qual deles sofreu a maior transformação nessa jornada e passou a ser um ser humano melhor, mais compreensivo com os direitos do outro?

Curiosidades sobre Green Book

  • The Negro Motorist Green Book era um folheto impresso, um tipo de guia de viagem com uma lista de hotéis e restaurantes nos quais os negros poderiam frequentar livremente. Foi publicado pela primeira vez em 1936 e vendido até 1966.
  • No filme, a turnê durou dois meses. Na vida real, o percurso demorou um ano e meio. O filho de Tony, Nick Vallelonga, é co-autor do roteiro. As cartas que o pai escreveu para a mãe serviram como base para a produção, que contou com a direção de Peter Farrely.
  • Green Book  foi indicado ao Oscar 2019 em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Ator (Viggo Mortensen), Melhor Ator Coadjuvante (Mahershala Ali), Melhor Roteiro Original e Melhor Montagem. Ganhou as estatuetas de Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Mahershala Ali) e Melhor Roteiro Original.

 

 

Monique Gomes é jornalista freelancer certificada em Marketing de Conteúdo, feminista, cinéfila e livre de glúten. 

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2 comentários sobre “Será que Green Book é um filme sobre o branco que ensina um homem a ser negro?

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