Cravo, Canela e Revolução

Imagem retirada do Blog do Alpino.

Eu ainda não tinha parado para assistir a Novela das 11h, Gabriela. Até porque habitualmente nesse horário eu já estou sonhando com os anjos. Mas, na noite passada, quando tive que me manter acordada, vi cenas muito curiosas, dignas de comentário. Quando a novela foi transmitida em 1975, com Sônia Braga como protagonista, eu ainda usava chupeta e sujava fraldas. E até ontem o livro do Jorge Amado (lançado em 1958) não fazia parte da minha coleção (Clique aqui e acesse o e-book).

O fato é que eu me dei conta da importância dessa obra, em vários aspectos, mas, sobretudo no sentido de provocar comportamentos que foram transformadores para colocar as mulheres numa situação mais favorável, igualitária.

A história se passa no ano 1925, “quando florescia o cacau e imperava o progresso com amores, assassinatos, banquetes, presépios, histórias variadas para todos os gostos, um remoto passado glorioso de nobres soberbos e salafrários, um recente passado de fazendeiros ricos e afamados jagunços, com solidão e suspiros, desejo, vingança, ódio, com chuvas e sol e com luar, leis inflexíveis, manobras políticas, o apaixonante caso da barra, com prestidigitador, dançarina, milagre e outras mágicas ou um brasileiro das arábias”.

Em uma cena da novela, duas garotas falavam de um trabalho da escola. Enquanto uma planejava escrever sobre os direitos do voto feminino como tema de redação, a outra, conservadora e indiferente ao fato de que a mulher também é um ser pensante, escreveria sobre o perfume das rosas. Não desmerecendo o perfume que exalam as rosas, mas naquela época, em que as mulheres não tinham voz nem vez, era o momento de se rebelar. Provocar uma revolução. E rosas não falam, como diz a música.

Outra cena extremamente interessante e tão importante se tornar pública para o conhecimento da nova geração, foi o diálogo entre o casal representado pela Maité Proença e José Wilker. Para escândalo do marido, ela questionava o porquê dele nunca beijá-la ou tratá-la com carinho. Ele rebateu que uma mulher direita não fazia aquele tipo de pergunta, enfim, pensar, questionar, dialogar ou falar sobre sexo eram qualidades das “quengas”.

Outro diálogo, dessa vez entre uma prostituta e o personagem do Antônio Fagundes (desculpe, não sei o nome dos personagens), deixou uma frase retórica no ar: “Se existem putas é porque existem clientes”, mais ou menos assim. A mulher se defendia da proibição de participar das procissões religiosas e do hábito de adorar Nossa Senhora publicamente.

O capítulo da noite passada, que eu acidentalmente assisti, imediatamente me lembrou de uma frase citada por Lennon, que retrata com fidelidade a trajetória de desgraça que (quase) todas as mulheres carregam nas costas, desde o nascimento à morte. Disse ele: “A mulher é o negro do mundo. A mulher é a escrava dos escravos. Se ela tenta ser livre, tu dizes que ela não te ama. Se ela pensa, tu dizes que ela quer ser homem”. Certamente Yoko Ono foi uma excelente companheira, porque fez com que ele conseguisse enxergar a opressão e o preconceito sofrido pelas mulheres através dos olhos dela.

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