Retrospectiva

Você já infringiu uma lei, fez algo que poderia ter te levado para a cadeia? Eu já pichei um muro. Isso foi na década de 90, um pouco antes de desenvolverem uma lei que enquadra a pichação como crime ambiental. Acho que, tecnicamente, eu não poderia ser presa ainda.

Pichar é um ato de vandalismo. No meu caso, não. Eu só queria mudar o mundo… e foi munida de uma lata de spray que eu executei essa missão numa parede de um terreno baldio. A frase, não me lembro, mas era uma dessas frases de efeito que quando o sujeito lê, fica reflexivo. Eu jamais faria rabiscos ilegíveis em áreas urbanas, isso é patético.

Um dia a Realidade me deu boas-vindas e eu percebi que a vida não era como as propagandas de coca-cola. Isso aconteceu porque houve um tempo em que tudo o que eu fazia e o que eu NÃO fazia se transformavam em notícia. Eu era contra o sistema. Estava naquela fase de muitas perguntas e poucas respostas. Havia acabado de conhecer a hipocrisia de perto. Tinha aversão a regras e ria de hierarquias. Eu era a estranha no ninho que não gostava de forró nem carnaval e ainda tinha o antecedente de ter pichado uma parede.

Foi uma fase importante. O peso da injustiça me trouxe senso crítico e ao contrário do que eu imaginava, meu senso de humor não foi seqüestrado. Demorei para queimar meu primeiro sutiã em praça pública, mas o fiz em 2003, no texto Todo Obstáculo ao Progresso da Cultura é um Mal. O primeiro artigo a gente nunca esquece, sobretudo este, que nasceu movido pela indignação.

Mas, se a adolescência foi meio aos trancos e barrancos, a infância também teve seus percalços. Aos 8 anos, quando cheguei em Ubajara, o primeiro contato com os terráqueos do local aconteceu no universo escolar. Meus colegas de classe zoavam com o meu nome o tempo inteiro. “Monique, ahahah parece nome de cachorro!”. Todos os dias eu escutava uma piadinha.

Como se já não bastasse o meu nome parecer tão estranho pra eles, o meu cabelo era uma coisa! Lembra do corte de cabelo dos Beatles? Aquele modelito arredondado, liso e com franja, mais parecido com um capacete? Pois minha mãe deve ter se inspirado nos caras na hora de cortar meu cabelo, meu e dos meus irmãos. Os três, igualzinho! Ainda resta uma foto desse momento histórico, os três irmãos com cabelo-capacete ao lado de uma televisão jurássica, daquelas com pernas cumpridas.

Juntou o nome considerado bizarro com o cabelo à lá Beatles, eu era facilmente confundida com um menino na escola. Uma guitarra na minha mão e eu seria a cover infantil do Paul McCartney…  : ) Não abria o bico na sala de aula. Interagir com o professor era a morte. Ouvia tudo calada, dentro do meu casulo particular, o meu mundo.

O mais engraçado disso tudo é que o tempo passou e eu continuo pichando os muros da cidade. Sem a latinha de spray.

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